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sexta-feira, 5 de março de 2010

Álbuns que mudaram o mundo




*Caetano Veloso - Transa



     Não, não vou falar-vos do Sgt.Peppers, do Electric Ladyland, Dark Side of the Moon, Raw Power, London Calling ou OK Computer. Para começar mais uma rubrica aqui no Conflito, resolvi começar por falar um pouco sobre Transa(1972) um álbum marcante na longa discografia do cantor baiano Caetano Veloso,numa das suas fases mais irreverentes.
   Conta a história que Caetano na época com 30 anos e exilado em Londres,se deslocou ao Brasil em 1971 para assistir à cerimónia de comemoração do 40º aniversário do casamento dos seus pais.Durante essa estadia seria detido e interrogado no Rio de Janeiro,durante a detenção,os militares do antigo regime terão-lhe sugerido que gravasse uma música que homenageasse a nova rodovia Transamazônica - na época uma construção polémica pelo seu preço exagerado e por ser um projecto claramente "faraónico".Uma enorme rodovia com cerca de 4000 kms, que atravessa transversalmente o Brasil, desde o Paraíba até ao Amazonas. Caetano não terá gostado da imposição e, de volta a Londres grava um LP com o nome de Transa, claramente numa alusão irónica ao nome da rodovia e um trocadilho com o verbo brasileiro transar. Será talvez a forma que Caetano encontrou, para sugerir a um regime tão opressor,tradicional e sorumbático, que tanto perseguiu a ele e a outros nomes importantes da MPB (Música Popular Brasileira) nos finais da década de 60, de que o que necessitava era de mais Transa mesmo.
  O álbum é, em grande parte, cantado num inglês com sotaque,o que dá um carácter mais exótico às músicas já por si só extremamente originais, dentro desse lote destaco naturalmente Nine out of ten.
Acerca desta música Caetano disse o seguinte:


"(...)a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70. "




  

terça-feira, 2 de março de 2010

parou de chover / belle de jour

Parou de chover.
As nuvens começam a desvanecer.
A noite torna-se novamente nua.
O luar clareia as ruas
e de todas estrelas 
nasce um sorriso travesso.
Mesmo na incerteza 
se alguém 
alguma vez 
pensa em mim,
penso em ti sempre,
neste refúgio
à beira-mar.


                                                            After the rain,1899 G Klimt
                                                                                                                    


como a árvore 
sem vestimenta,
os ramos tornaram-se secos
no entanto as raízes 
continuam 
penetrando o subsolo,
apenas a mudança de estação
poderá trazer 
de novo a seiva e a flor.


a poética do renascimento
depois do dilúvio
um dia, talvez um dia
um pranto dos céus correrá
e o musgo nas arvores despontará
tal com o canto dos pássaros da figueira
lustre que indica ao caminhante
o final de um trilho.



Belle de jour

respiro o teu ar, ligado à terra
e sem ninguém à minha volta
ato todos os cordões umbilicais
na distância das noites
à superfície do que em ti semeei,
nasce um dançar prisioneiro querendo romper
com a cortina dos dias Memória dissidente de um beijo. Apenas e só. Cinema mudo sem espectador.


Diários de Bordo (Lagos)

 Acordo e espreito pela janela...o deus dos trovões não dá tréguas hoje.
Chuva e vento comprovam como este se encontrava chateado com todos nós, e eu vou tentando comunicar como todas estas entidades omnipresentes desde a tua ausência, nesta ressaca silenciosa em que a memória do teu rosto resiste na tenacidade de um quarto escuro.


Hoje tinha pensado ir a Lagos. Adormecer no areal da Praia do Pinhão.
Não me perguntes o que esta cidade sempre teve de especial, pois eu próprio também te não sei responder. Talvez seja pela mobilidade de quem foge à rotina diária e desses mesmos rostos macambúzios, quase moribundos que te cercam, intimidam e como que te prendem a fala. Assustei-me no outro dia, enquanto tentava falar com alguém e não conseguia...apercebo-me cada vez mais de que as drogas têm esse efeito em mim...cavar cada vez mais fundo o abismo que me separa da nossa comunicabilidade.

Mas Lagos, Lagos....bem, de facto hoje faz sol em Lagos.

E é pela janela do comboio que espreito e te escrevo agora estas palavras no meu caderno de apontamentos e parece até que aqui a tal entidade divina e omnipresente já não se encontra mais chateada conosco.
Um nervoso miúdo invade-me, como me fosse reencontrar me contigo pela primeira vez desde daquela noite que nos conhecemos, talvez não seja Lagos mas antes sim tu o destino pelo qual eu tanto anseio. Algumas dúvidas antecederam esta vinda, que já estava planeada há muito mas que a falta de tempo parecia não querer permitir.
  
 Ao visualizar a Marina, ao sentir de novo essa brisa relembro-me novamente de ti e dos teus cabelos que dantes eram curtos e agora imagino-os longos, inquietos e selvagens...um dia virás aqui comigo também. Os locais falar-te-ão as mais belas praias do país e até mesmo os pequenos grupos de holandeses e alemães, os foreigners, cidadãos foragidos do rebuliço das cidades grandes te irão dizer que este é um lugar tranquilo para se viver.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

guitarra 66



   Gosto bastante do novo projecto de Tó Trips, pois cada nota da sua Guitarra 66 transpira a ambiência de um lisboeta cidadão do mundo. A não perder no Café Concerto do Teatro Municipal na próxima sexta-feira.
   É recomendada uma audição, especialmente para quem goste de Norberto Lobo e dos álbuns acústicos de Six Organs of Admittance.

  Curiosamente, apercebo-me que poderá estar precisamente aqui, a resposta à pergunta do meu post anterior, como alguém que tenta contrariar a natureza do ser nómada que é (e que somos todos),creio que necessitarei sem dúvida de voltar a viajar. Sem rumo. Com já fiz noutros tempos, sentir o prazer do reconhecimento dos lugares e das coisas. Releio agora O Anjo Mudo procurando isso mesmo, mas não chega, terei igualmente que esquecer todos os espelhos e procurar antes pelas respostas nas estradas,planícies,horizontes deste vasto mundo por (re)conheçer.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

lisbon city blues

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                                            Eduardo Gageiro


Lisbon City Blues

Olisipo,
cidade erigida por Ulisses,
que esqueceu o hino de uma nação
numa outra cidade, seria sempre eu a sua narcótica canção

sem ninguém mais para te amar
nem ninguém mais para te temer
não te esqueças das bebidas
não te esqueças de ecoar todas as nossas causas desmedidas
e de abrigar os teus filhos nocturnos
com a palavra crente, quase amarga
absurda por vezes, nessa hora irônica e tardia
mas que ninguém acuse de ser fingida

da sua noite foraz,
brotam sorrisos e beijos
pela hora das colheitas, que nos trás
a erva-das-maleitas para todos os ensejos

Cidade Mãe
embora muitas vezes
também madrasta.
andrajosos corsários,
viveram os seus amores efémeros,
entre vielas e becos escondidos
e por aqui permaneceram
ancorados às suas contradições
são apenas mercenários
com corações tatuados, entregues
ao seu repouso austero.
até à hora das despedidas,
sem apegos nem distinções

Já o Alberto Caeiro sabia.

"O Tejo é de facto o rio mais belo da minha cidade,
mais não seja porque é o rio que corre pela minha cidade"


Displicente
como todos nós
vulgos da sua coletiva memória
O Tejo será sempre isso,
o rio ao qual o nosso olhar se entrega casualmente
até aos céus do esquecimento.

Mas tudo aqui é 
perfeito,
Por estar vazio,
Porque perfeito
e vazio,
nem sequer é
nem sequer existe

havia um rio apenas, no limiar que nos separava
afluente para um sonho interdito, como fado desdito
quase quase maldito,
maneirismo corporal de uma utopia
a revolução esquecida, que nunca soube aguardar
e cuja letargia não soube como recompensar
distância vivida
na dicotomia
nas silhuetas nas ruas, a emancipação de um drama
vive-se intensamente, lida-se com a infiel trama
que em breve
fará de tudo 
apenas uma leve memória
lobos e cordeiros, cedem de novo aos impulsos
segreda-se à lua, na cidade escolhida pelos amores convulsos
contos de encantar, rubros licores
bebidos numa tasca de fados ao jantar

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Recomendação Cinematográfica (Tetro - Francis Ford Coppola)

Hoje irei retornar às sessões do Cineclube de Faro para finalmente assistir a uma das estreias do ano passado mais aguardadas por mim. (Talvez só mesmo superado pelos Limites do Controle de Jim Jarmusch)
Para este interesse pelo novo filme de Copolla, sem dúvida que contribuirá o facto do actor a representar o papel da qual se centraliza a história do filme Tetro ser nem mais do que um dos actores americanos mais interessantes e "fora da caixa"...sim chamemos-lhe assim...da actualidade hollywodesca, Vincent Gallo.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

a marriage of heaven and hell


William Blake


   "Para qualquer poeta visionário, 
o amor é a única árvore da Verdadeira Vida..."