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sexta-feira, 25 de maio de 2012

entre casas de ardósia



rosas que floresciam
entre jardins de concreto
contemplativa elegia , 
entre monumentos erguidos 

tingimos todos os rostos de sangue
fingindo não acreditar.

naufrágio após naufrágio 
no resgatar das procelas
 
sem orações 
nós regíamo-nos apenas pelas Pirâmides 
do antigo Egito

pela aurora 
os pássaros de mau agouro 
esvoaçavam de novo no logradouro
e em nossas casas
nós ouvíamos passos vagarosos 
dos vultos lá fora
eram todos os homens condenados
que caminhavam em direção da forca
(distintamente sorrindo)

Arrepios,
nessas horas noturnas
em que os vaga-lumes
guiam os nossos olhos cegos

abre, 
por isso o teu livro de orações
e canta às horas 
uma nova canção de embalar

Entre todas as facas escondidas
e o desprezo
mesmo que sigamos caminhando
sob o mesmo sol.

this is my hometown...
but cannot still call it home.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Diários de bordo - A antiga estação de comboios

 Antiga estação de comboios





                                                                               
  A brisa primaveril num campo florido, o chocalhar das vacas e todas as conversas entre pássaros e insectos. 
O cigano e a sua égua trotam pela estrada na direção inversa. Minutos depois sento-me à sombra de uma árvore para tentar desenhar a estação de comboios abandonada da vila. O barulho da locomotiva lá ao fundo a atravessar essa linha faz me recordar o pano bordado pela minha bisavó com um pequeno comboio a vapor, o pano que os meus avós utilizavam quase para pôr na cesta do pão ainda bem quentinho enquanto ceávamos. Durante as férias de Verão juntamente com os restantes rapazes na vila por vezes brincávamos perto da estação abandonada. Havia algo de Mark Twain nas nossas brincadeiras junto à linha do caminho-de-ferro ou nos cigarros fumados às escondidas no celeiro abandonado. Para o rapaz da cidade que eu era, surgia assim muitas a oportunidade de sonhar ser como Huck Finn junto dos outros rapazes da aldeia. Ao regressar destas memórias o meu pensamento centra-se de novo no céu azul e os meus olhos perdem-se observando as aves que sobrevoam o horizonte. A paz e tranquilidade de uma natureza não profanada, percebo de novo assim quanto tudo isto é valioso. Por estes lados ainda não existe o stress das cargas horárias nem a devastação dos piratas do asfalto. O regimento das grandes cidades ainda não chegou cá, a famigerada autoestrada do progresso parou no sinal intermitente do espaço e do tempo
(por aqui planeia-se uma autoestrada para breve, algo que é visto com agrado pelos habitantes da vila por ser propicio a mais postos de trabalho).
    À sombra desta árvore esqueço-me de quem supostamente sou, sinto-me como se tivesse lúcido mas ao mesmo tempo amnésico, sei quem sou, visualizo nitidamente todas as memórias mas não me recordo mais de quem era antes. É como se tivesse acabado de ler um livro que contasse histórias da vida de um outro alguém.
   Um pastor, velho conhecido da minha família mais o seu fiel amigo, o cão, passeavam o rebanho pela estrada. A bengala ajuda-o a suportar o peso dos anos e uma nostálgica tristeza transparece através do olhar e no timbre da sua voz, são olhos fustigados pelas ávidas labutas campestres que só o manto de pele que carrega pelos ombros pode servir de testemunha. O manto representa a fidelidade de gerações às lides pastorícias, muito provavelmente já o seu pai o era, tal como o seu avô.

   
É assim a vida por estes lados, mudam as gerações mas as tradições mantém-se inalteráveis, talvez atrasado esteja só mesmo declínio de outros pontos, talvez esses mesmo declínio nunca chegue mesmo cá.
   Singela e intemporal como os dias que por aqui se passam, a antiga estação de comboios, abandonada e em ruínas, paira lá bem ao fundo do horizonte,
E torna-se tão fácil entrar numa viagem temporal, imaginando todo os antepassados daqui a virem buscar os seus familiares nos típicos calhambeques, conduzidos por senhores em fatos característicos, com os seus chapéus de coco, bengalas e os bigodes aparados e os cabelos inundados em brilhantina e as senhoras e longos vestidos protegendo-se do sol com as sombrinhas, tudo numa alegre romaria ao fim de tarde.
  



quarta-feira, 23 de maio de 2012

Diários de Bordo - Vila Nova de Milfontes






Vila Nova de Milfontes   


as ruas começaram a ficar desertas
pelas nove horas da noite
e a noite lenta
arrastava se reptiliana 
desde a travessa do arremedo 
até à esquina
de onde espreitava um bar
o bar dos lobos do mar e capitães sem medo
uma vez lá dentro 
toda a serenidade é reconfortada
com a impermanência dos licores
entre memórias e palavras multicolores, 
o sempre presente desejo alheio de fugir
a comandar a demanda
 
num esplendor hipnotizante
erguia-se o luar,
tecendo a superfície de todo um altar

- sem lume para mais um cigarro.

virás tu comigo um dia regressar 
a esse reino 
de bobos e charlatães?!
sorvidos por um culto
que com as trevas reveste
estas ruas estreitas, de onde 
se ergue o pássaro da noite vetusta
espreitando prazeres 
no vascular do corpo celeste

na alegre selvageria da noite, espremendo uma gota mais 
sem cura, entre escolhas nas perdições dos demais
uma resposta procurada no álcool 
e escutada 
no praguejar durante um jogo de futebol

da escadarias até à praia
nos sulcos das marés movem-se brisas,
e ao ritmo das ondas, arma-se o silêncio
ressoando e respirando entre nós cegos 
dos barcos regendo de surdina 
na crispação da noite que agora nos cerca
um profano desejo nos aniquila
prenúncios de um caos nocturno , 
de quem esculpiu a carne poema e a inaugurou
tecendo as tramas pelas ruas imaginárias do teu rosto.
compreendendo a culpa, cantando o blues


mundos subversivos
longitudes, arrastadas pelas recordações
lumes trêmulos que ardem dentro de um santuário, 
o ancião de todas as cidades indefinidas 
a dissidência de quem sabe 
que estaremos mortos e no inferno 
quando eles finalmente se lembrarem de escutar a canção 
que provinha deste bar

- the vomit express of a midnight brain
 
quatro da manhã, 
a barmaid pede te para sair, 
por todas as ruas, as flechas de fogo
sobrevoam nos 
e o luar segue nos 
sempre espreitando sobre as falésias.

adormeço de novo
ou continuo seguindo
os teus passos na areia ?!










terça-feira, 1 de maio de 2012

Massive Attack - Paradise Circus

Ok, independentemente de este blog vir ou não depois a ser censurado quis aqui partilhar a versão original(não censurada) com a entrevista feita a Georgina Splevin,antiga actriz pornográfica .E com excertos de alguns dos seus filmes como por exemplo o clássico The Devil in Miss Jones (1973). De referir também que a música conta com a participação vocal de Hope Sandoval(Mazzy Star).

http://smotri.com/video/view/?id=v1350480d98c

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Tao Te King

"Todos consideram o belo como belo
é nisso que reside a sua fealdade.
Todos consideram o bem como bem,
é nisso que reside o seu mal.
 
Porque o ser e o nada engendram-se
O fácil e o dificil completam-se
O longo e o curto formam-se um pelo outro.
O alto e o baixo tocam-se.
A voz e o som harmonizam-se.
O antes e o depois sucedem-se.

Por isso o santo adopta
a táctica do não agir,
e pratica o ensino sem palavra.
Todas as coisas do mundo surgem
sempre sem que seja ele o autor.

Produz sem se apropriar,
age sem nada esperar,
acabada a sua obra, a ela se não prende
e porque a ela se não prende,
a sua obra permanecerá."

*Tao Te King (Livro da Via e da Virtude) 

escrito muito provavelmente na primeira metade do séc VI a.C.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mark Rothko

"Uma pintura vive pelo companheirismo que se expande e desperta aos olhos do observador sensível.Morre também por isso.É portanto um acto arriscado e insensível enviá-la para o mundo, quantas vezes não deve ser diminuída pelos olhos do vulgo e pela crueldade do impotente que propagariam a aflição universalmente!"

















segunda-feira, 12 de setembro de 2011

a prayer for a rock 'n roll heart



    gently,
the fire turns
through the void 
and demands fulfillment
the beast crawls
through the soil
and twists just for your endearment
I'll love you,
I'll hate you
I'll dance
while this record is playing
humming sounds of sin 
that feeds the fire within 
our rock 'n roll hearts.
hedonistic seraphim,
moving her lips to me
in all her pictures black & white
standing naked
in our garden of delights
defiance
is the only truth
the reality trigger, 
that diggers
through mud and insanity
castrating and tempting 
at the same time
alchemy of intimacy, further from sensibility
through endless accords, blissful truth enforced
the blessed ones now will hear it 
in our minus chords,
all the passion
built in mysterious crafts,
the blue notes within 
the heresy of sound
set's now the fire
through this holy ground.

making love
to invoke the muse
a prayer to our rock'n roll hearts.