Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Abismos







i

fiz de novo rimas
com as ruínas da infância
entregando os diamantes 
à terra que me deu de comer
vislumbrando
o espesso licor
de encantos
na intermitência das tempestades
na noite dos desencantos,
a outra face da lua
deixará sempre a sua marca.

E se anseio,
clamo o teu nome.
E se digo não,
a minha consciência sangra.
Serei o teu vampiro 
com as presas da agonia
cravadas na recusa do teu pescoço.
Serei escravo em ti medusa,
com todos os meus pesadelos 
transformados em pedra.

Para acordar
do simples espanto
em que habito,
fumo então
de janela aberta
na esperança que o esquecimento
te leve para bem longe de mim.


ii

A desdita fonte sanguinária
que secou no Inverno,
e que nenhumas palavras
conseguem redimir.
A vaga promessa,
desfraldada
na luxúria de um adeus
e na destreza
com que tornam
a vestir as roupas.

Enveredando 
entre manhãs distintas,
entregam-se assim de novo à solidão.

iii

Violinos subterrâneos
incendeiam
as memórias de todos os rostos.
a era dos Deuses individuais
pathos distante
no caos 
que emerge 
pelas orlas destas ruas.

E a multidão,
sempre 
que o ritual se repete
segue procurando 
por verdades escondidas 
debaixo de um copo.

Na rua do velho taberneiro
sentar-me-ei de novo
absorvendo à distancia
o aroma a decadência
ou talvez apenas a dança
que desprende a voluptuosidade
do arrebatamento colectivo.

Sabes tu que me ouves
que me lês,
que darei sempre com o caminho
desde que vás mantendo
as tochas acesas
e que te espero
encontrar de novo
na avidez
que nos levará a galope até à cidade
aonde deveríamos sempre voltar.

A nossa cidade.

O frémito do abismo
cresce de novo
nas memórias 
de despedidas à beira 
de um mar cor-de-vinho.

Na raiz 
da noite humana
anseio sempre,
pela transmutação
no negro das palavras.


“And those who were seen dancing were thought to be insane by those who could not hear the music.”    
Friedrich Nietzsche