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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cidades Adoptivas




recorda-me de novo
                                             essa antiga cidade
Babilónia de flores e de cal,
recorda-me de
de quando partilhamos 
o vinho de poetas e noctívagos
todo o circo sentimental,
a que nos rendíamos
sempre 
antes de regressar aos dias
e às figuras rotineiras
prevalecendo a busca 
pelo conforto
pelos tesouros 
na névoa da volúpia
- a tentação 
dos corpos sem rumo nem idade.

 outras vezes,recordo 
a nossa cidade natal
embarcando no expresso 
da minha imaginação erótica

um encontro numa qualquer avenida 
                                          um ataque cardíaco 
                                         provocado pelo excesso
                                 ou apenas mais uma briga de bordel 

sem mais assunto 

para conversa de cinéfilos

sem cigarros 

e sem sitio para dormir

as donzelas oferecem-me o abrigo

e eu desmonto a trouxa 

aceitando todo o calor humano

no couraçado abrigo 
                                               de mim mesmo.





terça-feira, 20 de novembro de 2012

Maria




Se os meus pássaros
voassem ao ritmo das tuas ancas 
na esperança que subsiste,
na imensidão das insónias.
relembrado sempre
todos os passos esquecidos
no secreto inventário dos deuses.

Se os meus pássaros
voassem ao ritmo das tuas ancas
entre todas as feras soltas deste circo
entre os cavalos cansados
que bebem deste rio
sobre a crista das ondas
que se elevam
ou apenas nesta valsa
que se dança sozinho.

Se os meus pássaros
voassem ao ritmo das tuas ancas
na tristeza e na lucidez
que se esbatem
nestas trevas.
Cantando versículos,
que de novo nomeiam
a beleza profética no teu olhar.

Oferecer-te-ia
um ritmo novo,
uma dança
um sacrifício ao luar,
e como quem colhe um vestido
responderias
a cada carícia com uma carícia
cada apreço
como uma nova dádiva
e dirias até amanhã
na alvorada
sempre com um sorriso
sentenciando a luz das manhãs.
Quando os pássaros
vêm pousar na minha árvore
oferecem-se
excêntricas flores prateadas
e os lábios
cerram-se com um dedo
no ocaso das palavras
apenas para nos entregarmos
de novo
à lascívia das nossas mãos .
Quando os pássaros
vêm pousar na minha árvore
vertem-se lágrimas circunscritas
em torno da noite
esculpindo memórias.
Quantas lágrimas mais serão precisas 
para germinar um sonho?!

Asa glaciar ferida.
Hoje, nenhuma paixão
 reconfortante nos virá salvar
E no entanto, todos os pássaros
seguem cantando bem baixinho,

a volúpia da tua Atlântida.






sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A haunting charm







                                                 a single awe 
from her
turns wolves into sheeps
scarlet nights 
of requests
in a profane sleep.

she plays the lyres
like a haunting charm,
a crescent moon
in the yearning days

a flaming lark of delusions
as we walk 
into the flickering lights,
glancing
all the naked bodies 
dancing

it's a daring poetry
that smiled
a murderer smile.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Build me a woman - The Doors

Still trying to find the shape of a "perfect" woman


Give me a witness, darling.
I need a witness, babe.
I got the poontang blues.






I got the poontang blues.
From the top of my head to the bottom of my cowboy shoes.
Build me a woman,
Make her ten feet tall.
You got to build me a woman,
Make her ten feet tall.
Don't make her ugly,
Don't make her small.
Build me a woman,
Make her ten feet tall.
You got to build me a woman,
Make her ten feet tall.
Don't make her ugly,
Don't make her small.
Build me someone I can ball
All night long.

sábado, 25 de agosto de 2012

Beatitude










As cartas
das cartomantes
falaram-me
de ti,
as imagens
recorrentes
elevaram-me
até ti
desde os focos de luz
que a janela
deixou transparecer
todo o traço rudimentar,
com que tento redesenhar
o teu rosto ,
desde as brumas
da contemplação
   à palavra ...

Mar onde
                                              deram à costa
  todos os bastardos da humanidade.
na dança dos nenúfares
da melopeia da sereia
nascerá um novo nome
para toda esta beleza selvagem.












terça-feira, 21 de agosto de 2012

Only bleeds









they bought us fear
through the media
they bought us 
medicine aches
to numb our ideals
a internal emptiness
 manifestation 
of selfishness
single substance
without a soul
only bleeding
for free
in dull forms 
of manipulation.

men preaching
all their cold teachings
a will to obey
a retoric ballance
for a generation
feed on distortions
and senseless displays

violent dreams
in screen plays
ultra violence 
made just for you 
despising 
all of you
today
delaying it
for another day,
forget it 
anyway
- always in the mood 
for depressive swings

Death
- its still not the answer
 through this morning mist
a new drift away.










quarta-feira, 25 de julho de 2012

Let it kill you





Max Ernst

every night
it kills me
your endless trace
which I follow 
from body to body
in this maze

to seek harmony
in your power of
individuality,
your sensuality

in another 
midnight ride
looking for her again
looking for her tonight

sipping all the nectar
to burn memories
a new distress
all life on the edge
but never look down
never look down
or cease to find love
a cure too pure
too vain
in this gain

terça-feira, 17 de julho de 2012

Diários de Bordo XI - Brugges

O comboio partia de Paris. Todas as imagens eram como fragmentos de superstições ao ritmo das sextas feiras. Deus tornava-se presente em todas as palavras órfãs. Sórdidas memórias. Ínfimas palavras que floresciam, vagas e difusas como sempre...caros desprezados filhos e filhas da vontade do amor. Optei por isso, em vez de me perder nas memórias das belles femmes parisienses por voltar aos poucos ao comboio e aos rostos que me tinha tentado abstrair olhando pela janela. As ruas precisam de mais luz, pensava eu relembrando-me de Barcelona e do dealer chileno que só fazia o que fazia porque sonhava em tirar a sua companheira brasileira da prostituição. A verdade é que são estas as canções que nunca ninguém dispõe a ouvir... rindo sarcasticamente do drama nas alturas em tudo te parece estranho como um soco no estômago ou o efeito retardado de uma qualquer droga desconhecida. Só conhecia antes o sul de França e as paisagens nocturnas de Langedoc-Roussilon e agora novas e dispersas paisagens se apresentam assim num lento descortinar distante de tudo o que te é familiar. Um novo começo...talvez digo eu... Pensamos tantas vezes no processamento dos dias para que a morte se sature de nós. Pensamos em ser. Nunca apenas em parecer. Queremos domar o mundo. Ao mesmo tempo que somos tomados por toda uma vontade indomável de loucura. Queremos ver tudo num só vislumbre, sentir de forma translúcida nos olhos da pessoa amada. No entanto dessa plenitude ficará sempre apenas uma réstia de memórias insípidas que te acompanharão nas tuas viagens. Nunca consegui entender realmente o motivo porque se viaja, nem sei se haverá necessariamente algum motivo mas a existir seria certamente o tal segredo que todos eles pareciam aqui ignorar enquanto me observavam. Haverá no entanto sempre algo de triste na forma como as pessoas cruzam-se e separam-se nesta linha de vida. Senti-o novamente, por exemplo quando mudei de comboio no norte de França ao despedir-me das duas espanholas de Andaluzia que foram a minha companhia em grande parte da viagem, duas estudantes de Erasmus que das quais não me separaria sem antes lhes prometer ir visitar a Málaga. Mais uma das inúmeras promessas que deixei por cumprir. Sentindo tudo novamente sem o esperar enquanto saia do comboio, como Jean Pierre Leaud num qualquer filme de Truffaut. Com um qualquer filho esquecido de uma obstinada esperança num sonho sereno em fim de tarde solarengo. Era Nord-Pas-de-Calais contrastando com o clima quase sempre sombrio que encontrei em Paris. Não que o mesmo clima não fosse o mais indicado para a cidade em questão mas nesta mudança repentina de cenário, era uma felicidade espontânea que nos transportava nos passos pela cidade num clima de uma primavera de Outubro. Sentei-me no parque, fumando e apercebi-me de quanto eram diferentes as fachadas das casas e o formato das ruas. Era a característica arquitectura flamenga. Convém referir que Lille na língua flamenga se pronuncia Rijsel. E Rijsel tem corpo e alma de belga embora mantenha uma identidade francesa. Por sua vez quando entrei no simpático pais belga tinha em mente sair em Gent mas, improvisando um pouco e não resisti ao apelo que Brugge me fez pela janela, não hesitando quando saltei do comboio. Pedi um mapa da cidade ao chegar ao primeiro quiosque à saída e percorri toda a cidade no sentido diagonal acabando por ter logo uma ideia positiva dos belgas à primeira impressão. Os belgas transpareceram sempre a ideia de tipos humildes. Mas a grande surpresa estar-me-ia reservada no centro ao dar com uma pousada junto aos canais na parte antiga. Desenhavam-se sorrisos nas conversas de bar entre cervejas belgas aonde gostei de ouvir o português falado pela primeira vez em semanas através de uma bela brasileira de Belo Horizonte que conversava com duas espanholas que por sua vez também planeavam ir a Lisboa. Fiz a minha primeira deambulação pela cidade conversando com um mexicano chamado Robélio e um canadiano chamado Stuart. Ambos viajavam juntos desde Bruxelas e Stuart já se tinha comprometido a substituir a pequena e simpática rapariga loira de dreadlocks da recepção que desejava mudar-se para Inglaterra juntamente um outro tipo da pousada. Stuart tornara-se chato com os seus constantes interrogatórios no que à cultura musical dizia respeito por sua vez Robélio que ia mantendo o seu low profile falava-me sobre o seu pais e das viagens que fez com amigos pelos Estados Unidos. Ficava cada vez mais interessado no que ele tinha a dizer em contraste com o discurso sempre pretensioso de Stuart que já apenas praticamente ignorava. Com é que estes dois se davam tão bem e viajavam juntos já há alguns dias era o que me intrigava. Quando regressei à pousada e enquanto me barbeava num lavatório no nosso quarto misto reparei que uma rapariga observava-me atentamente. A primeira coisa que me perguntou foi "Do you do Yoga?!".Contou-me depois a sua história de vida e disse-me que tinha vindo de umas férias na zona da Baviera com o namorado, só que ele teve que voltar mais cedo. Através da sua face rubra e meio embriagada o seu discurso atabalhoado aos poucos tornava-se mais ternurento aos meus olhos. Era transparente de uma forma a que já não estava habituado. Deixei-me facilmente seduzir por ela. Fumamos os nossos cigarros enquanto observávamos o luar no pátio da pousada. Sempre com sorrisos cúmplices, sempre com vontade de algo mais. Fomos dormir. No dia seguinte antes de eu ir para Gent ela contou-me uma história de uma cantora italiana que se suicidou e cujo o nome não me recordo agora e na despedida cantou-me a canção dessa mesma cantora, ela estava na sua bicicleta e eu de mochila às costas. Parti assim novamente e com o peso de mais uma despedida sobre os meus ombros e ligado novamente ao mundo à minha frente. Ela chamava-se Betty.





segunda-feira, 16 de julho de 2012

Divinity in wilderness






My divinity
                                             in this wilderness
                                                    tangling 
all my thoughts
into her realm.

Winds of Fedra,
staring throught 
her ethereal visions 
in rage.

A rite of alchemists
a map of souls
written in ancient scrolls
large scrolls
in traversed halls.

- were queens once dwell.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Esfinge de Calypso








libertar as nossas almas num voo de pombas

entre as fissuras das muralhas


que nos impedem de amar.




i

Nefastas as memórias 
de uma noite de Fevereiro, 

As harpias 
cantam os versos enfeitiçados.
A neve caí
sobre os corpos cansados. 
Madressilvas
entregam-se aos ventos
na aurora-boreal do esquecimento.

ii

O mistério permanece
adensando-se, incógnito...
o seu coração é um livro caro leitor,
um livro que vos tento descrever. 
A loba mãe e a filha
que nos bosques 
devoram todos os homens comuns,
a quem fizeram
promessas de imortalidade.







     

domingo, 24 de junho de 2012

Diários de Bordo X- Amsterdam

                                                                                






Mein eerst besuch naar Amsterdam



  Cheguei com D. de comboio durante a tarde. Provínhamos de Utrecht cansados, comentando o típico nacionalismo holandês que parecia colidir com a imagem projectada para fora de este ser um pais liberal. Tudo simplesmente por causa de um tipo que tinha passado por nós, todo equipado com as três cores nacionais holandesas. Segundo D. era normal algumas pessoas vestirem-se assim, sapatos vermelhos, calções azuis e camisola branca por exemplo. Eu sorria sarcasticamente enquanto ouvia esta última observação, após conviver com vários tipos de cultura nunca deixava de me surpreender com as idiossincrasias de cada povo.



  Para o artista todo o processo de procura é essencial, não digo nada de novo com isto, a vida imita a arte e vice-versa construindo-se com isto tudo um número elevado de recursos no discurso artístico vivendo e extraindo conhecimento através das nossas experiências e claro...que convém sempre sobreviveres para  poderes contar todas essas experiências. Nos meus últimos anos de adolescente confesso que passava muitas noites em claro, não é que agora durma melhor pois o sono agitado já há muitos anos que me é uma característica familiar mas acontecia muitas vezes acordar e deslocar-me até à varanda do meu quarto passando depois horas a tentar ver algo mais além da realidade que me era projectada pelas luzes das casas em meu redor. Muitas vezes nem uma única luz acesa havia, todos dormiam, e nada havia que me permitisse ter uma melhor visão do mundo e que fizesse florescer todo o ímpeto criativo, por isso acabava sempre por divagar mentalmente por várias eras anteriores, como por exemplo a que pertencia à época dos finais do séc.XIX, a época dos dandy's , dos poetas malditos e de toda uma imensidão de movimentos artísticos (Surrealismo,Dadaísmo,etc).Quando não havia a televisão todos os pilares culturais eram sempre mais exigentes, não defendo com isto elitismo ou presunção pois sempre detestei hipsters emproados e snobs... gostaria apenas que houvesse mais curiosidade entre as pessoas que me rodeiam, que saíssem mais vezes dos seus nichos e das suas habituais picardias futebolísticas...em suma de tudo aquilo a que se pode chamar "zonas de conforto" procurando assim ouvir outros tipos de música, ver outros tipos de filmes e conhecer outras pessoas e culturas...infelizmente foi este o meio em que tive que crescer e viver grande parte da minha vida o que não me terá dado a possibilidade de conhecer as chamadas "pessoas certas". Todas as que partilhassem esta curiosidade comigo e que tivessem vontade de a transformar em energia criativa. Será talvez aqui que o povo português fica a perder em comparação com os restantes países mais evoluídos, não só pelo comodismo como também pela incrível falta de solidariedade com o próximo, a incapacidade de se elogiar alguém mesmo que seja só para servir de incentivo e não deixarem os outros tão desamparados, não...pelo contrário a tua insegurança acaba por funcionar demasiadas vezes sem conta como um trunfo a ter em conta e o teu sucesso demasiadas vezes motivo de inveja...especialmente para quem se interessa apenas pela postura, pelo "status" mesmo que este muitas vezes seja alcançado mais à custa de ajudas e favores do que pelo mérito próprio. Creio que será no entanto importante forçar as pessoas a tentar comunicar, a partilharem, a libertarem o "solar plexus" como diria certamente um entendido nas matérias de Yoga. Voltando atrás, eu retomaria mesmo ao período da civilização grega ou micénica somente para visualizar o nascimento da poesia, da literatura e da filosofia e conhecer a origens da verdadeira democracia podendo assim ver como todos esses princípios foram sendo deturpados ao longo dos séculos. A televisão e os média actualmente provocam em nós o mesmo efeito reversivo que a igreja provocava nas pessoas da idade das trevas mas a verdade é que por vezes as pessoas não aguentam e nessas alturas o sistema parece estar prestes a arrebentar pelas costuras, podendo assim talvez estarmos prestes a entrar numa nova era com o finalizar anunciado da antiga, na forja de toda uma nova "civilização grega" aonde seja possível reaprender de novo todos os princípios básicos de uma civilização.



  De volta a Amsterdam, de referir que durante a tarde, junto ao Damrad enquanto ouvíamos um grupo de pedintes a tocar flauta, D. mostrou-me aonde se podia alugar bicicletas a um preço relativamente acessível, a melhor maneira de conhecer esta cidade era de facto de bicicleta, só assim podemos realmente interagir com os locais, a bicicleta holandesa tem uma estranha forma de se guiar. Para se travar é preciso pedalar ao contrário o que pode causar alguma confusão ao inicio, houve uma vez por isso mesmo que estive quase a bater num carro enquanto saia do Vondelpark. Trazia um pouco de erva que tinha comprado num coffe-shop aonde trabalhava uma bonita mulata com o seu penteado à Bettie Davis que com a sua voz tranquilizante recomendou-me a experimentar Sencimilla. Sentei-me no Coffe-shop aonde era o único cliente, tratava-se de um espaço igualmente agradável assim como a música e tal como a voz da "Bettie".Tudo isto levava-te facilmente a fluíres,permanecia sentado com a cabeça e as costas encostadas na parede, os olhos semicerrados mantendo um sorriso tranquilo para a empregada e mundo parecia de facto um lugar melhor naquele momento. Encontraria alguma paz de espírito também no dia seguinte,estava deitado na relva do Vondelpark  e enquanto enrolava mais um joint daquela sencimilla seguia observando uns músicos de rua a tocar, desta vez dois instrumentistas de sopro e uma cantora de baixa estatura, carismática e com uma voz vibrante que conseguia superar todo o frenesim das pessoas que por ali passavam, umas de bicicleta outras a passearem os seus animais.Foi ali que encontrei o meu momento de paz no caos de Amsterdam. Estive hospedado numa pousada cristã chamada The Shelter, que era a mais barata das pousadas na cidade. Um tipo húngaro que lá trabalhava, com o seus cabelos compridos e o bigode igual a Átila o Uno, metia-se constantemente comigo perguntando-me de onde era, isto enquanto estava sentado na parte de cima do meu beliche tentando ler um livro qualquer que não me recordo agora. Na noite antes tinha estado a ver um jogo qualquer do Ajax no Hill Street Blues Bar, com 2 americanos que não percebiam nada de futebol europeu, no meio da confusão do bar ia tentando fazer-lhes entender como é que era o futebol europeu e o que o fazia distinguir-se do futebol americano. Já bastante embriagado e ainda stoned mas com nítidas dificuldades em manter o controle cheguei assim à pousada, a recepcionista polaca que conheci durante a tarde quando resolvi enviar uns postais para o I. (o tipo do norte que tinha conhecido em Barcelona).A recepcionista após uma breve conversa resolveu dar-me um livro qualquer que apregoava entre outras coisa à importância da família, sempre afável no trato via-se que se esforçava por manter uma postura imaculada,sorria timidamente e em desaprovação cristã cada vez que lhe falava em algo que a parecia querer fazer desencaminhar. Foi nítido o seu olhar de reprovação para a colega quando ambas me viam chegar nessa noite e no dia seguinte o estranho rapaz húngaro só se limitava a sorrir para mim e a dizer com o seu sotaque dos cárpatos "You're crazy,you´re crazy...we needee to go oute man, have some drinks go to the girrless...man you're crazy" dizia me ele enquanto arrumava as tolhas nos restantes beliches do quarto. Nunca cheguei a sair com o "Átila" pois a partir daquela noite resolvi distanciar-me das pessoas da pousada, gostei de conhecer um estudante de arquitectura de San Diego que me falou bastante sobre a costa californiana e descreveu-me o famigerado Big Sur gostei também de um rapaz africano que coxeava e andava de muletas dos Camarões, nós tivemos o nosso belo momento de conversa ao pequeno almoço enquanto ouvíamos Bob Marley do seu mp3 e cantarolávamos para um grupo de teenagers americanas que estavam ali sentadas connosco. Connosco estava também um rapaz da República Dominicana, depois da conversa com o americano ambos começaram-me então a fazer perguntas sobre o meu país ao que eu ia respondendo com entusiasmo enquanto eles limitavam-se a fingir estar interessados no que dizia, ia apercebendo-me de tudo isso mas nem assim resfriava o meu discurso, já que as americanas pareciam por sua vez estar atentas e sorridentes a tudo ao que eu dizia. Na minha última noite em Amsterdam era para ter ido ver um concerto da banda belga dEUS no salão de concertos Paradiso, só que infelizmente acabou por ser cancelado devido a problemas de garganta do vocalista e enquanto vagueava pelos canais por uma última vez um vagabundo tentou cravar-me trocos, tentando mostrar-se mais poliglota do que realmente era, quando apercebi-me disso e não cedi aos seus constantes e quase insuportáveis pedidos, e quando me sentei num banco perto do Damrad para enrolar um cigarro, um outro tipo estranho e calado sentou-se mesmo ao meu lado sem proferir uma palavra, sem se mexer, só sentia a sua respiração quase suspensa e atenta a mim...levantei-me imediatamente, pois claro. No ultimo dia assisti também a um despejo de uma casa de okupas com todo o aparato da policia de choque, com os seus escudos, bastões e capacetes em contraste com um grupo de cerca de 20 anarkas magrinhos que se limitavam a fazer os seus gritos de ordem, isto com os média a tentarem não perder pitada e um helicóptero visionando toda a operação através de um espaço aéreo. Achei tudo aquilo ridículo, surreal para um pais que tanto vendia a imagem de liberal e permissivo, havendo talk shows em horários nobres com pessoas experimentando vários tipos de drogas e falando dos seus efeitos, um verdadeiro prato de estupidez servido pelos média holandeses, com as novas vedetas televisivas" servindo de cobaias em directo para o espectador, tudo transbordava a hipocrisia e a máscara do controle policial caía ali naquele momento o que me fazia aperceber que Amsterdam apesar de ser uma cidade fascinante, a Veneza do Norte como alguns a chamavam, não era o reino dos "Paraísos Artificiais" que idealizamos na adolescência. Acabei por ir para o aeroporto por volta das 03h00 da manhã culminando quase dois meses a viajar, na minha mente já não pensava sequer em português, transportava uma miríade de rostos e idiossincrasias e sentia-me forte, vivo e mais rico pois tinha conseguido sobreviver com poucos meios. Perfeita foi a minha companhia no avião para Faro. Era um feriado importante na Holanda e havia um numero razoável de holandeses já de uma certa idade que se deslocavam ao nosso pais nessa altura. Atraídos pelo turismo rural das vilas alentejanas, o senhor que se sentou a meu lado era médico sem fronteiras e foi-me contando as suas histórias e experiências de vida que viveu por exemplo na altura do tsunami na Tailândia. Esta ultima viagem passou-se fugazmente e despertou-me para a importância da medicina nas nossas vidas e como felizmente para nós ainda existem estas pessoas, sempre predispostas a ajudar, pessoas altruístas que vivem de tentar causar bem estar entre os outros, abençoadas sejam estas pessoas, se não fosse o facto de elas viverem entre nós muito provavelmente já não existiria mundo. Obrigado.







Ed van der Elsken



O fotografo e realizador holandês retrataria a "sua" Amsterdam em 1983,que podemos visualizar numa série de pequenos vídeos que para já vão estando disponíveis no You Tube. Uma verdadeira preciosidade que vale a pena espreitar.





quarta-feira, 20 de junho de 2012

Diários de Bordo IX- Paris

                                                                     
 Perante a inesperada expectativa de uma mulher com ares de modelo em que eu lhe comprasse um quadro que não passava de uma imitação barata dos pintores do impressionismo, talvez Degas não me recordo agora, isto numa loja no bairro chique de Marais eu disse-lhe que pretendia um dia tornar me uma personagem de banda desenhada...não, agora mais a sério, sorri como um bom cavalheiro e arrepiei caminho.
  Sem as pretensões elitistas de grande parte das pessoas que se cruzavam pelo meu caminho, homens calvos e baixos de fatos Armani com modelos loiras altíssimas, lojas com fachadas Art Noveau...enfim é Paris, França. Longe vai o tempo dos guerreiros gauleses como Vercingetórix que cobriam os cabelos com banha. Nos bairros mais suburbanos povoados por marroquinos, argelinos e restantes povos do norte de África o sentido estético destes não deixava de ser estranho, quase egocêntrico, americanizado, as marcas de roupas que encontramos nas feiras cujo os rótulos se assemelham aos que são feitos na América...o que nos deixa com a ideia de que este tipo de franceses procurava ser uma imitação não assumida apenas por orgulho tolo dos americanos, não o típico gaulês atenção...esses eram como os pequenos gauleses loiros de olhos azuis que brincavam junto ao Centre Pompidou, ou como o pai rude no olhar e na fala que segurava a criança ao colo no comboio nocturno que fazia o percurso de Hendaye até Paris. Vi tipos bem vestidos que pareciam o Luis Garrel de mão dada com tipas loiras aos caracóis cujas feições lembravam-me Sophie Marceau isto no Quartier Latin aonde ao olhar para a montra de uma livraria vi também uma mulher sexagenária a passear o seu cão,uma mulher que podia muito bem passar por uma qualquer actriz reformada como Jeanne Moreau ou Brigitte Bardot e até as esbeltas garçonettes dos cafés me lembravam actrizes de cinema, sentei-me no primeiro andar do Les deux Maggots só para sentir a perspectiva de onde Hemingway escreveu o seu A Moveable Feast isto entre os olhares de desdém dos turistas americanos e até dos empregados que olhavam para as minhas calças de bombazine quase desbotadas e o ar de vagabundo, fiquei um ou dois minutos a contemplar essa mesma perspectiva e a imaginar-me no lugar do escritor até que fugi, antes que o empregado me viesse perguntar alguma coisa, algo que já tinha feito por exemplo no Martinho da Arcada em Lisboa aonde me sentei no mesmo lugar aonde Fernando Pessoa tinha o hábito de se sentar, o lugar do retrato de Almada Negreiros. Voltando a Paris,devo confessar que sentia-me mais desenvolto quando saía de noite, o saudar nocturno da cidade também era próprio e individualista, de beleza inconfundível sempre, sensual, delicada...isto não é nenhuma novidade visto ser a cidade do absinto cantante e das bailarinas de Cancan que ficaram imortalizadas pelo pequeno/grande Toulouse - Lautrec, torna-se assim fácil penetrarmos numa película a preto e branco e quase imaginarmos a Jean Seberg a dizer "New York Herald Tribune" nos Champs- Elisées e enquanto percorremos as ruas de Montmarte torna-se igualmente fácil visualizarmos tudo a transformar-se em sépia,é no Lapin Agile que os pintores se encontravam todos.Ali perto está a famosa basílica do Sacré-Coeur que tão brilhantemente foi descrita pelo Kerouac no Lonesome Traveler, a sua rosácea mais parece um portal para o Paraíso. Tenho vindo a encontrar alguns portais nesta minha estranha viagem que tem corrido surpreendentemente bem. E cada vez mais me apaixono por esta donzela quase-independente, esta cidade que quanto mais se aprende a escutar os seus segredos mais profundamente ela te parece penetrar na alma. Eis que paro junto ao Sena e o cansaço de andar de mão dada com fantasmas regressava por breves instantes via-os no entanto lentamente fluírem de mim em direcção às águas, eu sentia-me ainda enclausurado e as pessoas às vezes pareciam notar isso, como foi o exemplo daquele atencioso casal americano que me vendeu o Chronicles Vol I do Bob Dylan, ou até mesmo o olhar intimidador de Paul Verlaine num enorme quadro escondido entre toda a tralha de uma loja de antiguidades, mas sentia também que eram cada vez maiores os momentos de lucidez, de me sentir desperto e não disperso.



sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os teus sonhos destilam o meu vinho





entre estes dois mares que se navegam
e as terras que segregam
todos sonhos que se alimentam
da morte na espera
- porque o gosto acre a morte exaspera
Esse calafrio sem voz que seduz
esse corpo da mais obscura leveza
que te conduz.

Guerreiros que
recuperam o brilho de luas distantes
nas horas trémulas
em que filhos furtivos escolhem a noite.



e em cada conto, eu te escuto

à tona de agua

enigma primaveril
não tenho sede nem lei
sou o teu filho pagão
que a loucura tece e atordoa
sem princípios nem um fim
  e em cada conto eu te escuto
invocando reencontros,
nestes labirintos de Dédalo.

trovas cantadas,
todas as noites
aos nossos corações exilados.

lava assim de novo,
o teu olhar na penumbra
teme pelo incendiário delito dos sentidos.







quinta-feira, 14 de junho de 2012

Quarto Minguante

Costuma-se dizer que a lua é mentirosa.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Flowers Nest








lost in a creed
my reverence 
with your caress,
my lust, the crest
of rapture waves

- through all the flaming ways

mother, 
in anguish 
remarking the paths of wisdom
deceit or madness
all servants of an ancient 
darkness

casting stones
for the Son of Man
your inner development
is the devoted seed
being left without sin
no witness for the wortless
where time fades,without telling
no transcendence
to a undeemed humanity

- the true lies

and all that you wasted
I want 
to make it yours
again
(she says)

tune it now, 
your misterious dance 
with this music
tune it all
at the same heart beat.