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domingo, 24 de junho de 2012

Diários de Bordo X- Amsterdam

                                                                                






Mein eerst besuch naar Amsterdam



  Cheguei com D. de comboio durante a tarde. Provínhamos de Utrecht cansados, comentando o típico nacionalismo holandês que parecia colidir com a imagem projectada para fora de este ser um pais liberal. Tudo simplesmente por causa de um tipo que tinha passado por nós, todo equipado com as três cores nacionais holandesas. Segundo D. era normal algumas pessoas vestirem-se assim, sapatos vermelhos, calções azuis e camisola branca por exemplo. Eu sorria sarcasticamente enquanto ouvia esta última observação, após conviver com vários tipos de cultura nunca deixava de me surpreender com as idiossincrasias de cada povo.



  Para o artista todo o processo de procura é essencial, não digo nada de novo com isto, a vida imita a arte e vice-versa construindo-se com isto tudo um número elevado de recursos no discurso artístico vivendo e extraindo conhecimento através das nossas experiências e claro...que convém sempre sobreviveres para  poderes contar todas essas experiências. Nos meus últimos anos de adolescente confesso que passava muitas noites em claro, não é que agora durma melhor pois o sono agitado já há muitos anos que me é uma característica familiar mas acontecia muitas vezes acordar e deslocar-me até à varanda do meu quarto passando depois horas a tentar ver algo mais além da realidade que me era projectada pelas luzes das casas em meu redor. Muitas vezes nem uma única luz acesa havia, todos dormiam, e nada havia que me permitisse ter uma melhor visão do mundo e que fizesse florescer todo o ímpeto criativo, por isso acabava sempre por divagar mentalmente por várias eras anteriores, como por exemplo a que pertencia à época dos finais do séc.XIX, a época dos dandy's , dos poetas malditos e de toda uma imensidão de movimentos artísticos (Surrealismo,Dadaísmo,etc).Quando não havia a televisão todos os pilares culturais eram sempre mais exigentes, não defendo com isto elitismo ou presunção pois sempre detestei hipsters emproados e snobs... gostaria apenas que houvesse mais curiosidade entre as pessoas que me rodeiam, que saíssem mais vezes dos seus nichos e das suas habituais picardias futebolísticas...em suma de tudo aquilo a que se pode chamar "zonas de conforto" procurando assim ouvir outros tipos de música, ver outros tipos de filmes e conhecer outras pessoas e culturas...infelizmente foi este o meio em que tive que crescer e viver grande parte da minha vida o que não me terá dado a possibilidade de conhecer as chamadas "pessoas certas". Todas as que partilhassem esta curiosidade comigo e que tivessem vontade de a transformar em energia criativa. Será talvez aqui que o povo português fica a perder em comparação com os restantes países mais evoluídos, não só pelo comodismo como também pela incrível falta de solidariedade com o próximo, a incapacidade de se elogiar alguém mesmo que seja só para servir de incentivo e não deixarem os outros tão desamparados, não...pelo contrário a tua insegurança acaba por funcionar demasiadas vezes sem conta como um trunfo a ter em conta e o teu sucesso demasiadas vezes motivo de inveja...especialmente para quem se interessa apenas pela postura, pelo "status" mesmo que este muitas vezes seja alcançado mais à custa de ajudas e favores do que pelo mérito próprio. Creio que será no entanto importante forçar as pessoas a tentar comunicar, a partilharem, a libertarem o "solar plexus" como diria certamente um entendido nas matérias de Yoga. Voltando atrás, eu retomaria mesmo ao período da civilização grega ou micénica somente para visualizar o nascimento da poesia, da literatura e da filosofia e conhecer a origens da verdadeira democracia podendo assim ver como todos esses princípios foram sendo deturpados ao longo dos séculos. A televisão e os média actualmente provocam em nós o mesmo efeito reversivo que a igreja provocava nas pessoas da idade das trevas mas a verdade é que por vezes as pessoas não aguentam e nessas alturas o sistema parece estar prestes a arrebentar pelas costuras, podendo assim talvez estarmos prestes a entrar numa nova era com o finalizar anunciado da antiga, na forja de toda uma nova "civilização grega" aonde seja possível reaprender de novo todos os princípios básicos de uma civilização.



  De volta a Amsterdam, de referir que durante a tarde, junto ao Damrad enquanto ouvíamos um grupo de pedintes a tocar flauta, D. mostrou-me aonde se podia alugar bicicletas a um preço relativamente acessível, a melhor maneira de conhecer esta cidade era de facto de bicicleta, só assim podemos realmente interagir com os locais, a bicicleta holandesa tem uma estranha forma de se guiar. Para se travar é preciso pedalar ao contrário o que pode causar alguma confusão ao inicio, houve uma vez por isso mesmo que estive quase a bater num carro enquanto saia do Vondelpark. Trazia um pouco de erva que tinha comprado num coffe-shop aonde trabalhava uma bonita mulata com o seu penteado à Bettie Davis que com a sua voz tranquilizante recomendou-me a experimentar Sencimilla. Sentei-me no Coffe-shop aonde era o único cliente, tratava-se de um espaço igualmente agradável assim como a música e tal como a voz da "Bettie".Tudo isto levava-te facilmente a fluíres,permanecia sentado com a cabeça e as costas encostadas na parede, os olhos semicerrados mantendo um sorriso tranquilo para a empregada e mundo parecia de facto um lugar melhor naquele momento. Encontraria alguma paz de espírito também no dia seguinte,estava deitado na relva do Vondelpark  e enquanto enrolava mais um joint daquela sencimilla seguia observando uns músicos de rua a tocar, desta vez dois instrumentistas de sopro e uma cantora de baixa estatura, carismática e com uma voz vibrante que conseguia superar todo o frenesim das pessoas que por ali passavam, umas de bicicleta outras a passearem os seus animais.Foi ali que encontrei o meu momento de paz no caos de Amsterdam. Estive hospedado numa pousada cristã chamada The Shelter, que era a mais barata das pousadas na cidade. Um tipo húngaro que lá trabalhava, com o seus cabelos compridos e o bigode igual a Átila o Uno, metia-se constantemente comigo perguntando-me de onde era, isto enquanto estava sentado na parte de cima do meu beliche tentando ler um livro qualquer que não me recordo agora. Na noite antes tinha estado a ver um jogo qualquer do Ajax no Hill Street Blues Bar, com 2 americanos que não percebiam nada de futebol europeu, no meio da confusão do bar ia tentando fazer-lhes entender como é que era o futebol europeu e o que o fazia distinguir-se do futebol americano. Já bastante embriagado e ainda stoned mas com nítidas dificuldades em manter o controle cheguei assim à pousada, a recepcionista polaca que conheci durante a tarde quando resolvi enviar uns postais para o I. (o tipo do norte que tinha conhecido em Barcelona).A recepcionista após uma breve conversa resolveu dar-me um livro qualquer que apregoava entre outras coisa à importância da família, sempre afável no trato via-se que se esforçava por manter uma postura imaculada,sorria timidamente e em desaprovação cristã cada vez que lhe falava em algo que a parecia querer fazer desencaminhar. Foi nítido o seu olhar de reprovação para a colega quando ambas me viam chegar nessa noite e no dia seguinte o estranho rapaz húngaro só se limitava a sorrir para mim e a dizer com o seu sotaque dos cárpatos "You're crazy,you´re crazy...we needee to go oute man, have some drinks go to the girrless...man you're crazy" dizia me ele enquanto arrumava as tolhas nos restantes beliches do quarto. Nunca cheguei a sair com o "Átila" pois a partir daquela noite resolvi distanciar-me das pessoas da pousada, gostei de conhecer um estudante de arquitectura de San Diego que me falou bastante sobre a costa californiana e descreveu-me o famigerado Big Sur gostei também de um rapaz africano que coxeava e andava de muletas dos Camarões, nós tivemos o nosso belo momento de conversa ao pequeno almoço enquanto ouvíamos Bob Marley do seu mp3 e cantarolávamos para um grupo de teenagers americanas que estavam ali sentadas connosco. Connosco estava também um rapaz da República Dominicana, depois da conversa com o americano ambos começaram-me então a fazer perguntas sobre o meu país ao que eu ia respondendo com entusiasmo enquanto eles limitavam-se a fingir estar interessados no que dizia, ia apercebendo-me de tudo isso mas nem assim resfriava o meu discurso, já que as americanas pareciam por sua vez estar atentas e sorridentes a tudo ao que eu dizia. Na minha última noite em Amsterdam era para ter ido ver um concerto da banda belga dEUS no salão de concertos Paradiso, só que infelizmente acabou por ser cancelado devido a problemas de garganta do vocalista e enquanto vagueava pelos canais por uma última vez um vagabundo tentou cravar-me trocos, tentando mostrar-se mais poliglota do que realmente era, quando apercebi-me disso e não cedi aos seus constantes e quase insuportáveis pedidos, e quando me sentei num banco perto do Damrad para enrolar um cigarro, um outro tipo estranho e calado sentou-se mesmo ao meu lado sem proferir uma palavra, sem se mexer, só sentia a sua respiração quase suspensa e atenta a mim...levantei-me imediatamente, pois claro. No ultimo dia assisti também a um despejo de uma casa de okupas com todo o aparato da policia de choque, com os seus escudos, bastões e capacetes em contraste com um grupo de cerca de 20 anarkas magrinhos que se limitavam a fazer os seus gritos de ordem, isto com os média a tentarem não perder pitada e um helicóptero visionando toda a operação através de um espaço aéreo. Achei tudo aquilo ridículo, surreal para um pais que tanto vendia a imagem de liberal e permissivo, havendo talk shows em horários nobres com pessoas experimentando vários tipos de drogas e falando dos seus efeitos, um verdadeiro prato de estupidez servido pelos média holandeses, com as novas vedetas televisivas" servindo de cobaias em directo para o espectador, tudo transbordava a hipocrisia e a máscara do controle policial caía ali naquele momento o que me fazia aperceber que Amsterdam apesar de ser uma cidade fascinante, a Veneza do Norte como alguns a chamavam, não era o reino dos "Paraísos Artificiais" que idealizamos na adolescência. Acabei por ir para o aeroporto por volta das 03h00 da manhã culminando quase dois meses a viajar, na minha mente já não pensava sequer em português, transportava uma miríade de rostos e idiossincrasias e sentia-me forte, vivo e mais rico pois tinha conseguido sobreviver com poucos meios. Perfeita foi a minha companhia no avião para Faro. Era um feriado importante na Holanda e havia um numero razoável de holandeses já de uma certa idade que se deslocavam ao nosso pais nessa altura. Atraídos pelo turismo rural das vilas alentejanas, o senhor que se sentou a meu lado era médico sem fronteiras e foi-me contando as suas histórias e experiências de vida que viveu por exemplo na altura do tsunami na Tailândia. Esta ultima viagem passou-se fugazmente e despertou-me para a importância da medicina nas nossas vidas e como felizmente para nós ainda existem estas pessoas, sempre predispostas a ajudar, pessoas altruístas que vivem de tentar causar bem estar entre os outros, abençoadas sejam estas pessoas, se não fosse o facto de elas viverem entre nós muito provavelmente já não existiria mundo. Obrigado.







Ed van der Elsken



O fotografo e realizador holandês retrataria a "sua" Amsterdam em 1983,que podemos visualizar numa série de pequenos vídeos que para já vão estando disponíveis no You Tube. Uma verdadeira preciosidade que vale a pena espreitar.





quarta-feira, 20 de junho de 2012

Diários de Bordo IX- Paris

                                                                     
 Perante a inesperada expectativa de uma mulher com ares de modelo em que eu lhe comprasse um quadro que não passava de uma imitação barata dos pintores do impressionismo, talvez Degas não me recordo agora, isto numa loja no bairro chique de Marais eu disse-lhe que pretendia um dia tornar me uma personagem de banda desenhada...não, agora mais a sério, sorri como um bom cavalheiro e arrepiei caminho.
  Sem as pretensões elitistas de grande parte das pessoas que se cruzavam pelo meu caminho, homens calvos e baixos de fatos Armani com modelos loiras altíssimas, lojas com fachadas Art Noveau...enfim é Paris, França. Longe vai o tempo dos guerreiros gauleses como Vercingetórix que cobriam os cabelos com banha. Nos bairros mais suburbanos povoados por marroquinos, argelinos e restantes povos do norte de África o sentido estético destes não deixava de ser estranho, quase egocêntrico, americanizado, as marcas de roupas que encontramos nas feiras cujo os rótulos se assemelham aos que são feitos na América...o que nos deixa com a ideia de que este tipo de franceses procurava ser uma imitação não assumida apenas por orgulho tolo dos americanos, não o típico gaulês atenção...esses eram como os pequenos gauleses loiros de olhos azuis que brincavam junto ao Centre Pompidou, ou como o pai rude no olhar e na fala que segurava a criança ao colo no comboio nocturno que fazia o percurso de Hendaye até Paris. Vi tipos bem vestidos que pareciam o Luis Garrel de mão dada com tipas loiras aos caracóis cujas feições lembravam-me Sophie Marceau isto no Quartier Latin aonde ao olhar para a montra de uma livraria vi também uma mulher sexagenária a passear o seu cão,uma mulher que podia muito bem passar por uma qualquer actriz reformada como Jeanne Moreau ou Brigitte Bardot e até as esbeltas garçonettes dos cafés me lembravam actrizes de cinema, sentei-me no primeiro andar do Les deux Maggots só para sentir a perspectiva de onde Hemingway escreveu o seu A Moveable Feast isto entre os olhares de desdém dos turistas americanos e até dos empregados que olhavam para as minhas calças de bombazine quase desbotadas e o ar de vagabundo, fiquei um ou dois minutos a contemplar essa mesma perspectiva e a imaginar-me no lugar do escritor até que fugi, antes que o empregado me viesse perguntar alguma coisa, algo que já tinha feito por exemplo no Martinho da Arcada em Lisboa aonde me sentei no mesmo lugar aonde Fernando Pessoa tinha o hábito de se sentar, o lugar do retrato de Almada Negreiros. Voltando a Paris,devo confessar que sentia-me mais desenvolto quando saía de noite, o saudar nocturno da cidade também era próprio e individualista, de beleza inconfundível sempre, sensual, delicada...isto não é nenhuma novidade visto ser a cidade do absinto cantante e das bailarinas de Cancan que ficaram imortalizadas pelo pequeno/grande Toulouse - Lautrec, torna-se assim fácil penetrarmos numa película a preto e branco e quase imaginarmos a Jean Seberg a dizer "New York Herald Tribune" nos Champs- Elisées e enquanto percorremos as ruas de Montmarte torna-se igualmente fácil visualizarmos tudo a transformar-se em sépia,é no Lapin Agile que os pintores se encontravam todos.Ali perto está a famosa basílica do Sacré-Coeur que tão brilhantemente foi descrita pelo Kerouac no Lonesome Traveler, a sua rosácea mais parece um portal para o Paraíso. Tenho vindo a encontrar alguns portais nesta minha estranha viagem que tem corrido surpreendentemente bem. E cada vez mais me apaixono por esta donzela quase-independente, esta cidade que quanto mais se aprende a escutar os seus segredos mais profundamente ela te parece penetrar na alma. Eis que paro junto ao Sena e o cansaço de andar de mão dada com fantasmas regressava por breves instantes via-os no entanto lentamente fluírem de mim em direcção às águas, eu sentia-me ainda enclausurado e as pessoas às vezes pareciam notar isso, como foi o exemplo daquele atencioso casal americano que me vendeu o Chronicles Vol I do Bob Dylan, ou até mesmo o olhar intimidador de Paul Verlaine num enorme quadro escondido entre toda a tralha de uma loja de antiguidades, mas sentia também que eram cada vez maiores os momentos de lucidez, de me sentir desperto e não disperso.



sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os teus sonhos destilam o meu vinho





entre estes dois mares que se navegam
e as terras que segregam
todos sonhos que se alimentam
da morte na espera
- porque o gosto acre a morte exaspera
Esse calafrio sem voz que seduz
esse corpo da mais obscura leveza
que te conduz.

Guerreiros que
recuperam o brilho de luas distantes
nas horas trémulas
em que filhos furtivos escolhem a noite.



e em cada conto, eu te escuto

à tona de agua

enigma primaveril
não tenho sede nem lei
sou o teu filho pagão
que a loucura tece e atordoa
sem princípios nem um fim
  e em cada conto eu te escuto
invocando reencontros,
nestes labirintos de Dédalo.

trovas cantadas,
todas as noites
aos nossos corações exilados.

lava assim de novo,
o teu olhar na penumbra
teme pelo incendiário delito dos sentidos.







quinta-feira, 14 de junho de 2012

Quarto Minguante

Costuma-se dizer que a lua é mentirosa.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Flowers Nest








lost in a creed
my reverence 
with your caress,
my lust, the crest
of rapture waves

- through all the flaming ways

mother, 
in anguish 
remarking the paths of wisdom
deceit or madness
all servants of an ancient 
darkness

casting stones
for the Son of Man
your inner development
is the devoted seed
being left without sin
no witness for the wortless
where time fades,without telling
no transcendence
to a undeemed humanity

- the true lies

and all that you wasted
I want 
to make it yours
again
(she says)

tune it now, 
your misterious dance 
with this music
tune it all
at the same heart beat.