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terça-feira, 16 de março de 2010

Passagem de ano

  
-vi todos deporem as suas máscaras, de tal modo fiquei assustado
que tornei a colocar a minha.

Habitas 
dentro de mim
musa,
no ventre 
da fera em mim
em todos os horizontes 
intangíveis
fazendo dos teus homens  
presas levianas 
no antro 
dos teus encantos.

falaram-me outrora 
de um paraíso 
sem réis 
e de almas 
sem os enredos 
que se escondem 
sempre,
nos nossos sorrisos
torpes.

As portas 
de novo abertas,
as melodias 
ganham
outros contornos
hipnóticos...
na embriaguez 
dos nossos 
Paraísos Artificiais.

Fragmentos de pensamentos III

   Não existe corpo físico...existirá apenas uma noção ou ideia de corpo... matéria do que as outras pessoas pensam que és o que tu julgas ser pelo conhecimento adquirido e aquilo que realmente és pelo que praticaste com esse conhecimento... do Ego para o Superego ou como diria Breton de "Eros para Eros". Já Bob Marley dizia: "Eu fui um Rastafari a vida toda, a questão que deve colocar-se é a seguinte: quanto tempo até lá chegar, quanto tempo levarei eu a crescer?!".


   Eu pergunto agora por esse motivo se o poeta cria as coisas ou somente limita-se a recolher-lhas, a transfigurar-lhas e a orientar-lhas...
   Será esta pergunta sinónimo de ânsia demiúrgica?!Será que o poeta se converte através de uma vontade também demiúrgica?! Ou será somente uma (re)criação?! Como alguém que deseja substituir e sublimar toda a vontade de brincar que existe dentro de si desde criança...


(...) Não é o futuro que me preocupa, mas antes a inercia do presente e o medo do passado a ressentir-se e a influenciar já um possível futuro...fugir nunca é solução...o sinal encontra-se intermitente e terei eu ficado engasgado nesta adolescência conturbada mas o tempo não perdoa. Receio de quê?!...não ter medo de nada simboliza falta de amor-próprio e de amor pelos outros mas por sua vez o ter medo de tudo simbolizará um excessivo altruísmo. O simples medo de algo, para além de não simbolizar indiferença, talvez seja uma vontade conservadora de quem tudo questiona e desconfia entrando assim em contradição com a auto negação...Então e o medo do Nada?!

terça-feira, 9 de março de 2010

Eraserhead



                                                   * Eraserhead - David Lynch( 1977)


  Finalmente tive o ensejo de ver a primeira longa-metragem do realizador norte-americano David Lynch. No âmbito do ciclo do Fantasporto que está a decorrer esta semana (de 8 a 12 de Março) no Teatro das Figuras em Faro, o filme que iniciou este ciclo dedicado ao horror e ao fantástico foi nem mais do que o clássico underground Eraserhead.
   Como qualquer conhecedor da biografia de Lynch certamente saberá, durante o seu período académico este realizou 4 curtas metragens:Six Men Getting Sick (1966), The Alphabet (1968), The Grandmother (1970) e The Amputee (1974). Embora eu ainda só tenha tido a oportunidade de ter visto uma destas curtas, a sensação que existe é que estes filmes recorrendo muitas vezes à técnica do Stop motion (técnica de animação de fotograma em fotograma),tentavam seguir aquela que ainda hoje será referência principal no cinema de Lynch,a escola Surrealista. A interpretação dos sonhos freudiana que nos surge em muitos dos seus filmes, lembra-me Cocteau ou Buñuel e por vezes,recordam-me também filmes que Lynch deve ter visto e admirado vezes sem conta na sua Academia de Belas Artes.Como por exemplo, o filme Dadá de Fernand Leger, Ballet Mecanique (1924).
  Para tentar compreender melhor este Eraserheadprocurei então todas as referências que acabei de referir mas de facto não é um filme fácil.Este foi um projecto de cinco anos realizado sobre grandes dificuldades, tendo o realizador recorrido constantemente a ajudas financeiras de familiares e amigos para conseguir finalizar o filme.
  O bizarro,o absurdo e o horror se misturam e o que vem à tona é o lado mais obscuro do subconsciente.Fica-se com a ideia de um sonho distorcido, paramos de pensar, a "história" processa-se como uma hemorragia de sequências e imagens nonsense .Este Cadáver Esquisito Lynchiano mostra-nos como a cabeça do pai de uma criança deformada pode ser utilizada para fabricar lápis borracha, isto tudo nos sonhos da personagem,daí o nome Eraserhead. 

Ok. Pelo menos isto creio ter entendido. Mas que filme estranho.


"in heaven...everything is fine..."





sexta-feira, 5 de março de 2010

Álbuns que mudaram o mundo I




*Caetano Veloso - Transa



     Não, não vou falar-vos do Sgt.Peppers, do Electric Ladyland, Dark Side of the Moon, Raw Power, London Calling ou OK Computer. Para começar mais uma rubrica aqui no Conflito, resolvi começar por falar um pouco sobre Transa(1972) um álbum marcante na longa discografia do cantor baiano Caetano Veloso,numa das suas fases mais irreverentes.
   Conta a história que Caetano na época com 30 anos e exilado em Londres,se deslocou ao Brasil em 1971 para assistir à cerimónia de comemoração do 40º aniversário do casamento dos seus pais.Durante essa estadia seria detido e interrogado no Rio de Janeiro,durante a detenção,os militares do antigo regime terão-lhe sugerido que gravasse uma música que homenageasse a nova rodovia Transamazônica - na época uma construção polémica pelo seu preço exagerado e por ser um projecto claramente "faraónico".Uma enorme rodovia com cerca de 4000 kms, que atravessa transversalmente o Brasil, desde o Paraíba até ao Amazonas. Caetano não terá gostado da imposição e, de volta a Londres grava um LP com o nome de Transa, claramente numa alusão irónica ao nome da rodovia e um trocadilho com o verbo brasileiro transar. Será talvez a forma que Caetano encontrou, para sugerir a um regime tão opressor,tradicional e sorumbático, que tanto perseguiu a ele e a outros nomes importantes da MPB (Música Popular Brasileira) nos finais da década de 60, de que o que necessitava era de mais Transa mesmo.
  O álbum é, em grande parte, cantado num inglês com sotaque,o que dá um carácter mais exótico às músicas já por si só extremamente originais, dentro desse lote destaco naturalmente Nine out of ten.
Acerca desta música Caetano disse o seguinte:


"(...)a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70. "




  

terça-feira, 2 de março de 2010

Parou de Chover / Belle de Jour

Parou de chover.
As nuvens desvaneceram.
A noite torna-se novamente nua.
O luar clareou as ruas
e em todas estrelas 
existe um sorriso travesso.
Mesmo na incerteza 
se alguém 
alguma vez 
pensa em mim,
pensarei em ti sempre,
escondido neste refugio
à beira-mar.


                                                            After the rain,1899 G Klimt
                                                                                                                    


Numa árvore 
sem vestimenta,
os ramos tornam-se secos
enquanto as raízes 
continuam penetrando o subsolo,
apenas a mudança de estação
poderá trazer de novo a seiva e a flor...


Belle de jour


respiro o teu ar, sem ninguém à minha volta ato cordões umbilicais na distância das noites à superfície do que em ti semeei, um dançar prisioneiro querendo romper com a cortina dos dias Memória dissidente de um beijo. Apenas e só. Cinema mudo sem espectador.


Diários de Bordo

    Acordo e espreito pela janela...o deus dos trovões não nos dá tréguas hoje.
Chuva e vento comprovam como se encontra chateado com todos nós, e eu vou tentando comunicar como todas estas entidades omnipresentes desde a tua ausência, nesta ressaca silenciosa em que a memória do teu rosto resiste na tenacidade de um quarto escuro.


   Hoje tinha pensado ir a Lagos. Adormecer no areal da Praia do Pinhão.
Não me perguntes o que esta cidade tem de especial, pois eu próprio também não sei responder. Talvez seja pela mobilidade de quem foge à rotina diária destes mesmos rostos  que te sufocam e prendem a fala. Assustei-me no outro dia, enquanto tentava falar com alguém e não conseguia...apercebo-me cada vez mais de que as drogas têm esse efeito em mim...tornar cada vez mais fundo o abismo que me separa da nossa comunicabilidade.

   Mas Lagos, Lagos....bem de facto faz sol em Lagos!

E é pela janela do comboio que espreito e te escrevo agora estas palavras e parece até que aqui a tal entidade divina e omnipresente já não se encontra chateada connosco.
   Um nervoso miúdo invade-me, como se fosse reencontrar-me contigo pela primeira vez desde que nos conhecemos, talvez não seja Lagos mas antes tu o destino pelo qual eu tanto anseio. Algumas duvidas antecederam esta vinda, que já estava planeada há muito mas que a falta de tempo parecia não querer permitir.
  
   Ao visualizar a Marina, ao sentir de novo esta brisa relembro-me novamente de ti e dos teus cabelos que dantes eram curtos e agora imagino-os longos, inquietos e selvagens...um dia virás aqui comigo também. Os locais dir-te-ão as mais belas praias do pais e até mesmo os pequenos grupos de holandeses e alemães, os foreigners, cidadãos foragidos do reboliço das cidades gigantes, te irão dizer que este é um lugar tranquilo para se viver.