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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Diários de Bordo VII- Vilar de Mouros





As memórias de um festival ficam sempre em loop pela nossa cabeça,assim como a terra que se entranha na pele quando regressamos a casa de mochila às costas subnutridos e após várias noites mal dormidas. A primeira memória que me ocorre de Vilar de Mouros é a de chegar à Ponte Velha e assistir a todas aquelas pessoas nadando no riacho perto das árvores. Fumando, uma rapariga com tranças passou por mim sorrindo. Oiço-a dizer algo em espanhol ao vizinho e que lindo é o sotaque uruguaio, assim como eram os seus cabelos loiros e o sorriso fácil deixando no meu intimo um pronúncio alegre para aquilo que viria a ser o resto do festival. Fui desprendendo a voz aos poucos à medida que me ia deixando seduzir por uma espécie de liberdade que funcionava sempre melhor de noite. Num certo dia, talvez mesmo no último, após algumas horas de convívio com uns tipos alentejanos resolvi ir para dentro da tenda com o intuito de ler um livro, mas não conseguia concentrar-me...a erva e o vinho fluíam furiosamente, encostei o livro e sem conseguir adormecer inicialmente pois pelos gemidos um casal parecia entreter-se a foder numa das tendas mesmo ao lado da minha...até que finalmente adormeci e entrei numa espécie de estranho sonho em grupo com várias pessoas minúsculas em que viviam em grutas junto ao rio que se encontrava perto de nós. Algo como n' As Viagens de Gulliver e tudo tão assustadoramente real que quando despertei nem parecia que tinha chegado mesmo realmente a adormecer.




O principal motivo que me fez deslocar este ano ao Minho foi o facto de o Bob Dylan ir lá tocar, o que creio que acontecia pela segunda vez em nosso solo em mais de 40 anos de carreira. Numa das edições anteriores de Paredes de Coura já tinha sido a estreia de um outro grande senhor, canadiano de Ontário, que se viria a tornar mítica. E se a prestação do bardo-profeta americano do Minnesota,tantas vezes comparado a Shakespeare pelo número infindável de obras "do outro mundo", nesta edição do festival seria pelo menos para mim uma desilusão pela sua prestação alienada, quase totalmente desprovida de contacto o canadiano por sua vez e a banda Crazy Horse brindaram todos os presentes com mais de duas horas de um show imparável,destilando o mais puro rock n' roll à chuva. Diz-nos quem viu que este será mais um daqueles concertos inesquecíveis feitos para perdurar para sempre no imaginário pessoal de todos os amantes de música em Portugal.





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