As memórias de um festival ficam quase sempre em loop pelas nossas cabeças da mesma maneira que a terra se entranha pelos poros enquanto regressamos a casa de mochila às costas, subnutridos e após várias noites mal dormidas. A primeira memória que me ocorre de Vilar de Mouros é a de chegar à Ponte Velha com isto assistindo a todos os que nadavam no riacho perto das árvores. Fumando e comtemplando toda a perspectiva ampla enquanto conversava com os meus 3 companheiros de viagem, uma rapariga com tranças passava por mim sorrindo como que a dar-nos as boas vindas a todos a ver nos a chegar de tendas nas mãos. Ouço-a dizer algo em espanhol ao amigo e subitamente apercebo-me o quanto lindo é o sotaque uruguaio, assim como eram os seus cabelos loiros e o sorriso fácil, um prenúncio bastante positivo para o que viria a ser o resto do festival. Fui desprendendo a voz aos poucos à medida que deixava seduzir por esta espécie de liberdade festivaleira que funcionava muito melhor de noite. Num certo dia, talvez mesmo no último, após horas de convívio com uns tipos alentejanos resolvi ir para dentro da tenda com o intuito de ler um livro, mas não me conseguia concentrar para tal...a erva e o vinho fluíam furiosamente, encostei o livro e sem conseguir adormecer muito por culpa dos gemidos de um casal numa das tendas ao lado da minha que assim se entretinham sem qualquer tipo de preocupações. Até que finalmente aos poucos adormeço entrando numa espécie de transe, num plano de realidade estranho em que parecia ter a capacidade de comunicar com grupos de pessoas minúsculas, tipo gnomos, que viviam em grutas junto ao rio que se encontrava perto do nosso acampamento. De repente sentia me num barco flutuando esse mesmo rio, deitado, como se fosse Gulliver, o gigante das viagens enquanto as criaturas iam aos poucos saindo das tocas, com as suas barbas longas e os chapéus pontiagudos para acenar me. Tudo tão assustadoramente real, que, quando despertei fiquei na dúvida se tinha chegado mesmo realmente a adormecer.
O principal motivo que me fez deslocar ao Minho este ano foi o facto de o Bob Dylan ir lá tocar, o que creio que acontecia pela segunda vez em nosso solo em mais de 40 anos de carreira. Numa das edições anteriores de Paredes de Coura já tinha sido a estreia de um outro grande senhor canadiano de Ontário, que se viria a tornar mítica. E se a prestação do bardo profeta americano do Minnesota, tantas vezes comparado a Shakespeare pelo número infindável de obras "do outro mundo" nesta edição do festival seria pelo menos para mim uma desilusão pela sua prestação alienada, quase totalmente desprovida de contacto. O canadiano por sua vez e a banda Crazy Horse brindaram todos os presentes com mais de duas horas de um show imparável, destilando o mais puro rock n' roll à chuva. Diz quem viu que este será mais um daqueles concertos inesquecíveis feitos para perdurar para sempre no imaginário pessoal de todos os amantes de música em Portugal.
Como o Dylan não deixou ninguém gravar nada do concerto dele...ficam aqui alguns apontamentos de dois dos concertos que mais queria ver. PJ Harvey e The Cure.
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