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terça-feira, 2 de março de 2010

parou de chover / belle de jour

Parou de chover.
As nuvens começam a desvanecer.
A noite torna-se novamente nua.
O luar clareia as ruas
e de todas estrelas 
nasce um sorriso travesso.
Mesmo na incerteza 
se alguém 
alguma vez 
pensa em mim,
penso em ti sempre,
neste refúgio
à beira-mar.


                                                            After the rain,1899 G Klimt
                                                                                                                    


como a árvore 
sem vestimenta,
os ramos tornaram-se secos
no entanto as raízes 
continuam 
penetrando o subsolo,
apenas a mudança de estação
poderá trazer 
de novo a seiva e a flor.


a poética do renascimento
depois do dilúvio
um dia, talvez um dia
um pranto dos céus correrá
e o musgo nas arvores despontará
tal com o canto dos pássaros da figueira
lustre que indica ao caminhante
o final de um trilho.



Belle de jour

respiro o teu ar, ligado à terra
e sem ninguém à minha volta
ato todos os cordões umbilicais
na distância das noites
à superfície do que em ti semeei,
nasce um dançar prisioneiro querendo romper
com a cortina dos dias Memória dissidente de um beijo. Apenas e só. Cinema mudo sem espectador.


Diários de Bordo (Lagos)

 Acordo e espreito pela janela...o deus dos trovões não dá tréguas hoje.
Chuva e vento comprovam como este se encontrava chateado com todos nós, e eu vou tentando comunicar como todas estas entidades omnipresentes desde a tua ausência, nesta ressaca silenciosa em que a memória do teu rosto resiste na tenacidade de um quarto escuro.


Hoje tinha pensado ir a Lagos. Adormecer no areal da Praia do Pinhão.
Não me perguntes o que esta cidade sempre teve de especial, pois eu próprio também te não sei responder. Talvez seja pela mobilidade de quem foge à rotina diária e desses mesmos rostos macambúzios, quase moribundos que te cercam, intimidam e como que te prendem a fala. Assustei-me no outro dia, enquanto tentava falar com alguém e não conseguia...apercebo-me cada vez mais de que as drogas têm esse efeito em mim...cavar cada vez mais fundo o abismo que me separa da nossa comunicabilidade.

Mas Lagos, Lagos....bem, de facto hoje faz sol em Lagos.

E é pela janela do comboio que espreito e te escrevo agora estas palavras no meu caderno de apontamentos e parece até que aqui a tal entidade divina e omnipresente já não se encontra mais chateada conosco.
Um nervoso miúdo invade-me, como me fosse reencontrar me contigo pela primeira vez desde daquela noite que nos conhecemos, talvez não seja Lagos mas antes sim tu o destino pelo qual eu tanto anseio. Algumas dúvidas antecederam esta vinda, que já estava planeada há muito mas que a falta de tempo parecia não querer permitir.
  
 Ao visualizar a Marina, ao sentir de novo essa brisa relembro-me novamente de ti e dos teus cabelos que dantes eram curtos e agora imagino-os longos, inquietos e selvagens...um dia virás aqui comigo também. Os locais falar-te-ão as mais belas praias do país e até mesmo os pequenos grupos de holandeses e alemães, os foreigners, cidadãos foragidos do rebuliço das cidades grandes te irão dizer que este é um lugar tranquilo para se viver.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

lisbon city blues

.





                                            Eduardo Gageiro


Lisbon City Blues

Olisipo,
cidade erigida por Ulisses,
que esqueceu o hino de uma nação
numa outra cidade, seria sempre eu a sua narcótica canção

sem ninguém mais para te amar
nem ninguém mais para te temer
não te esqueças das bebidas
não te esqueças de ecoar todas as nossas causas desmedidas
e de abrigar os teus filhos nocturnos
com a palavra crente, quase amarga
absurda por vezes, nessa hora irônica e tardia
mas que ninguém acuse de ser fingida

da sua noite foraz,
brotam sorrisos e beijos
pela hora das colheitas, que nos trás
a erva-das-maleitas para todos os ensejos

Cidade Mãe
embora muitas vezes
também madrasta.
andrajosos corsários,
viveram os seus amores efémeros,
entre vielas e becos escondidos
e por aqui permaneceram
ancorados às suas contradições
são apenas mercenários
com corações tatuados, entregues
ao seu repouso austero.
até à hora das despedidas,
sem apegos nem distinções

Já o Alberto Caeiro sabia.

"O Tejo é de facto o rio mais belo da minha cidade,
mais não seja porque é o rio que corre pela minha cidade"

Displicente
como todos nós
vulgos da sua coletiva memória
O Tejo será sempre isso,
o rio ao qual o nosso olhar se entrega casualmente
até aos céus do esquecimento.

Mas tudo aqui é 
perfeito,
Por estar vazio,
Porque perfeito
e vazio,
nem sequer é
nem sequer existe

havia um rio apenas que nos separava
afluente para o sonho interdito, num fado desdito
quase quase maldito,
maneirismo corporal de uma utopia
a revolução esquecida, que nunca soube como aguardar
e cuja letargia não soube recompensar
distância vivida
nesta nossa dicotomia
das silhuetas das ruas, a emancipação de um drama
vive-se intensamente, lida-se com a infiel trama
que em breve
fará de tudo 
apenas uma leve memória
lobos e cordeiros, cedem de novo aos impulsos
segreda-se à lua, na cidade escolhida dos amores convulsos
contos de encantar, rubros licores
bebidos numa tasca de fados ao jantar

sábado, 19 de setembro de 2009

Fragmentos de pensamentos - 2001

Era um domingo de manhã 
e a magia do teu olhar 
jamais será esquecida
o esplendor nas cores 
que de ti emanava,
o encantamento dos teus lábios 
afrontava
enquanto bebíamos todas as tentações 
com o teu andar

antes de ti, curvilínea resplandecência
antes das manhãs nebulosas
e numa prolongada ausência 
(toda a violência abrupta do sentir)

Ainda acreditas 
tu no livre-arbítrio
Quando tudo 
por vezes 
parece permanente
e imponente 
como a noite 
de onde me surgiste? (…)


(…) Como um sonho prostrado à porta de casa 
aqui jaz a inocência!
Vivência que renasce
e se materializa 
sempre
somente 
a um passo da alienação total
mas os sons permanecem…vagos…
ecoando no sótão desta casa vazia…
mais do que uma luz
é a voz pagã da esperança…
trágico deslumbramento
de figuras desmembradas pelo destino,
sugadas e enterradas algures…
assassinadas pelo porvir
que ao mesmo tempo insiste 
em germinar novas sementes,
as exíguas formas de amor...
ávidas e trêmulas
reflexos de uma noite em flor...
fragmentos triunfais 
de uma redenção celestial
descendo vertiginosamente,
recolhendo um a um 
os sonhos esquecidos
no resguardo do espanto...
embarco de novo 
nesta viagem noctívaga,
o retorno ao ponto de origem,
onde 
pernoita ainda 
a nossa inocência...
Verdes campos…relegados ao abandono
Não te sentes tentada a vir comigo
mais uma vez explorá-los?
Panteões do Paraíso
onde cada mármore,
cada pedra lacônica ganha vida…
de todas formas maciças e todos os métodos infligidos 
nas falácias do nosso dia a dia
resistem às súplicas 
por mais um favor...
por mais um dia
Pudesse eu transformar 
toda esta raiva contida
de quem por vezes 
se esquece de saborear 
verdadeiramente as coisas
em cantos e odes para todos os operários 
que perfilam 
no inferno 
da indiferença 
desta cidade!

(…) Hoje junto-me aos meus amigos para ouvir falar mal de tudo o que nos rodeia, critica-se o governo, critica-se o sistema educacional, os patrões, os nossos pais, os nossos filhos (sim, porque já há entre nós quem os tenha) e toda a nossa sociedade de “débeis mentais”.
Sendo nós incapazes de olhar para a realidade do nosso país com uma força empreendedora e construtiva abundam no entanto ideais passados em folhas de Xerox , este primado da oratória em detrimento de uma força empreendedora que as realize arrisca a falência de todas as ideias realmente inovadoras…”este é um país amputado, sem pernas para andar” dizemos todos nós em uníssono…mas não seremos nós que estaremos realmente a cortar as pernas a este país?...Podia levar horas a interrogar-me e a chegar a conclusões que na pertinência e legitimidade da nossa revolta nos pudesse realmente fazer “andar” até a algum lugar mas a fadiga atinge-me novamente, tal como a nostalgia , que não é facilmente disfarçada por todas estas conversas de índole politica.

(Janeiro 2001)


wicked rebels of a forsaken sun 
ravenous and sensuous
as new cult

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

luar de outono


She was the mirror of all her vanity/
mother nature raped in all her purity





pelas horas do sonho
e sob todas as faces da lua
um manifesto de corpos  
fulgurantes
consumindo-se
na conspiração animal 
dos desejos revigorantes.

Entre as névoas
e os céus vespertinos
dançamos por ti
filhos de uma celestial divindade
como uma benção a sangue no Nilo
- luminescência,
que queima as asas do anjo 

pela inocente vigília
num silêncio só nosso 
nas orlas das marés sem idade,
ouvem se os lobos selvagens
que silenciosamente continuam a uivar.

Nesta feira das vaidades.
Nós sabemos quem nos odeia.
Nós sabemos quem nos consome.

Luar de Outono,
entre as horas 
negadas à aurora
uma brisa de cinza cintilante
num instante ,
retratado a sepia.



segunda-feira, 14 de setembro de 2009

dreamers (visions from this side of paradise)







Les Amants Réguliers(Phillipe Garrel)
                            


C’est le Amour Fou

arriving for us,
passengers
in the prime of our passions
come hither, all words
shall be drawned in walls
- but the essence,yet is still to be found.
quite amused
I rediscovered
a fleeting memory,
recalling
the wild beauty
which whispered at me
with her long untidy hair full of leaves...

“Lover, you can go to sleep now…
I’ll soon be back again!”

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

the poetry place




This is for you
it is my full heart
it is the book I meant to read you
when we were old
Now I am a shadow
I am restless as an empire
You are the woman
who released me
I saw you watching the moon
you did not hesitate
to love me with it
I saw you honouring the wind-flowers
caught in the rocks
you loved me with them
At night I saw you dance alone
on the small wet pebbles
of the shoreline
and you welcomed me into the circle
more than a guest
All this happened
in the truth of time
in the truth of flesh
I saw you with a child
you brought me to this perfume
and his visions
without demand of blood
On so many wooden tables
adorned with food and candles
a thousand sacraments
which you carried in your basket
I visited my clay
I visited my birth
and you guarded my back
as I became small
and frightened enough
to be born again
I wanted you for your beauty
and you gave me more than yourself
you shared your beauty
this I only learned tonight
as I recall the mirrors
you walked away from
after you had given them
whatever they claimed
for my initiation
Now I am a shadow
I long for the boundaries
of my wandering
and I move
with the energy of your prayer
and I move
in the direction of your prayer
for you are kneeling
like a bouquet
in a cave of a bone
behind my forehead
and I move toward a love
you have dreamed for me


Leonard Cohen